
Assistimos a perca de perspectiva mundial visando uma revolução pelo trabalho, estamos imersos no mais degenerado reformismo, tal situação assume um nível mais perverso ainda em um país que fez sua entrada no capitalismo industrial através da via Colonial, local onde, os partidos que se dizem “esquerda” visam apenas o aperfeiçoamento do capitalismo.A fetichização da política traça a extensão da cidadania como solução para todos os problemas, e assim, todo sentido de mudança é reduzido a reformas medíocres, articuladas pelo alto; que não chegam nem de longe a tocar o cerne dos problemas que visa solucionar. O objetivo de nossa “esquerda” é o estabelecimento de um “Estado de bem estar social” que minimiza os conflitos dentro da própria ordem do capital. Assistimos discursos retrógrados e superados como inovações e soluções, um pede um pacto social entre burguesia industrial e proletariado (submissão do segundo) para o crescimento da “nação”, outro acredita que é possível fazer reforma agrária mantendo a estrutura de um país latifundiário agroexportador, e a solução do problema da fome, passa a ser a distribuição de suas bolsas misérias (não apenas pela porca filantropia ,que se manifesta de forma ideológicas, mas também pelo seu próprio valor de compra também é miserável), Se o mundo imerge na lama do reformismo, nos situamos em sua região mais putrefata.
Qual o sentido da revolução para nós? Um país subordinado, vítima da expansão colonialista do séc. XVI horta da Europa produzindo mercadorias de luxo (Açúcar, tinturas), fiel consumidor de suas manufaturas. Tento pensar em um momento que a colônia tentou sua emancipação, Digo toda a colônia não rascunhos insignificantes de uma classe média débil. Como nos separamos da metrópole senão por arranjos políticos entre a própria classe dominante? “Livres” produzimos café com mão de obra escrava, forçados pelo tempo e novas necessidades trilhamos o caminho para a república sob outro arranjo das classes dirigentes, enfim apenas na crise dos anos 30 através de uma “rearrumação do antigo bloco do poder, que coaptou - e desse modo, neutralizou e subordinou -alguns setores radicais das camadas médias urbanas” , que, enfim, começamos a nos concluir como um país capitalista que tende à base industrial, esta somente finalizada nos anos 70.
As transformações e a modernização econômica no Brasil, foram efetuadas por via política, por conciliações entre facções da classe dominante, de “medidas aplicadas de cima para baixo”, com a conservação consequente de relações atrasadas;[no caso do Brasil que não conheceu o feudalismo, o latifúndio, e no nosso caso com a reprodução ampliada da dependência do capitalismo internacional].O que segundo ele gerou o distanciamento das “massas” da luta por decisões no país.
Um traço consequente de nossa modernização sob ”via prussiana” (classificação feita por C.N.Coutinho), é que ela somente se deu “sob a proteção de um regime bonapartista, o Estado novo, que segurou pela repressão e pela demagogia a neutralização da classe operária, ao mesmo tempo em que conservava quase intocado o poder do latifúndio”. O ápice desta saga foi posto em jogo pelo o regime militar, que “criou em as condições políticas para a implantação em nosso país de uma modalidade dependente (e conciliada com o latifúndio) de capitalismo dependente de estado”, processo que radicalizou ao extremo “a velha tendência de excluir tanto dos frutos do progresso quanto das decisões políticas as grandes massas da população nacional”. Ou seja, O desenvolvimento do capitalismo por “via prussiana”no Brasil, manteve um estado ditatorial permanente sobre a “esmagadora maioria da população” articulada por uma oligarquia (antes latifundiária agora monopolista).O Estado é extremamente “forte e autoritário”, já que a sociedade civil apresenta-se de forma “amorfa e atomizada”.
Neste panorama “os partidos políticos e organismos de massa” nunca passaram, mesmo no período mais liberal (1945-1964) de “correias do Estado”, mecanismos de conciliação “pelo alto”. Os movimentos de massa sempre foram continuamente massacrados, seja por repressão direta, seja por concorrência com nossos governos populistas que se autodenominavam “salvadores da pátria”, “Paizinhos dos pobres”, “benfeitores da nação”.
Para a melhor compreensão do problema que nos cabe é José Chasin, em sua distinção entre via prussiana e via colonial que nos traçará o norte direcionador. Marx já via o estado prussiano como “um despotismo militar, com armadura burocrática e blindagem policial, adornando formas parlamentares ,com mistura de elementos feudais e de influências burguesas”. O que caracteriza a via prussiana rumo à modernização é a conciliação feita entre forças progressistas e atrasadas da mesma sociedade, as velhas forças e relações sociais não são derrubadas através de “amplos movimentos de massa”, como o comum na via clássica, mas a alteração social se faz mediante uma conciliação entre as velha e nova classe dominante, um reformismo, pela alto, que exclui as massas populares. A falta de unidade nacional, sua formação nacional tardia, legaram que, quando a burguesia alemã tende à constituição de um estado burguês, sua prosperidade, se encontrar durante o período de declínio da burguesia dos outros países da Europa ocidental, se lembrarmos que a revolução prussiana, ocorre em um momento de explosão do movimento operário(1848)que lega, no meio da revolução contra a ordem feudal, a burguesia Alemã ter que se conciliar com a antiga classe fundiária, contra a massa de trabalhadores urbanos e rurais, é a isto paga o preço de um progresso retardatário para o seu desenvolvimento na Alemanha, ”É sempre[...]o caráter retardatário e conciliador” que lega desenvolvimento pela via prussiana.
O Governo, assumindo o compromisso da modernização, só o consegue através de um estado autoritário permanente sua “forma bismarckiana”,através de reformas lentas e medíocres apresentadas à burguesia como um “sacrifício” do Estado a eles, que pede em troca cessões destas ao governo. Assim as grandes fazendas latifundiárias gradualmente passam a substituir os métodos feudais de exploração por métodos burgueses, tornando-se cada vez mais burguesas. Lênin, sobre este aspecto afirma que, o que temos é “a manutenção máxima da sujeição e da servidão(transformada ao modo burguês),o desenvolvimento menos rápido das forças produtivas e um desenvolvimento retardado do capitalismo; implica calamidades e sofrimentos ,exploração e opressão incomparavelmente maiores das grandes massas de camponeses e, por conseguinte do proletariado”, a industrialização aos poucos vai extraindo da conciliação as condições de sua existência e progressão, durante a passagem temos “formas híbridas de Dominação, onde ‘se reúnem os pecados de todos os Estados’”.
Embora tanto no Brasil como na Alemanha, a grande propriedade agrária se apresentou como um empecilho à formação capitalista, que o traço das transformações foram feitas “pelo Alto” pela conciliação, excluindo rupturas superadoras, excluindo as massas e seus interesses do processo, sendo que, nos dois casos o desenvolvimento produtivo seja lento, assim como a implantação da indústria, e com ela o “verdadeiro capitalismo”, os dois casos vitimas de forças retrógradas poderosas com as quais as forças progressistas acabam por se conciliar; A totalidade concreta, a “raiz” dos dois casos possui caráter distinto.
O Brasil nunca conheceu uma aristocracia fundiária de origem feudal, apresentando-se o nosso latifúndio em raízes diversas do caso Alemão, proveniente da empresa colonial na economia mercantil, ou seja uma peça na “acumulação primitiva de capitais” que forneceu no período as bases para o desenvolvimento das relações capitalistas na Europa.
A industrialização nos dois casos é tardia, no entanto, enquanto a industrialização alemã atinge um processo de expansão em velocidade acelerada a partir do final do Séc.XIX, sendo que, posteriormente pela falta de matéria prima e mercados consumidores, por ter entrado tardiamente no mundo imperialista colonialista, é obrigada a forçar uma re-divisão das colônias, eclodindo em duas guerras mundiais. No Brasil a industrialização começa mais tardiamente, já num plano avançado das disputas imperialistas, e a faz sem nunca romper com seu Status de pais subordinado. A diferença pois reside no essencial, a posição dos dois países na divisão internacional do trabalho, o Brasil faz parte, assim como tantos, daqueles países vitima da extração colonial, que estavam na disputa dos países capitalistas centrais a qual a Alemanha visionava entrar; daí a sugestão de denominar a via de desenvolvimento do Brasil como, via Colonial. Países como Alemanha, Itália e Japão, possuíram uma transição lenta ao capitalismo, através de reformas conciliadoras, por estados autoritários e adquirindo seus status de desenvolvimento tardiamente, entram, no começo do séc.XX como elos débeis da cadeia imperialista, mas mesmo assim, países imperialistas, aos quais o crescimento dependia da apropriação das colônias já conquistadas por outros países, daí a guerra.
O Brasil somente iniciará sua industrialização nos anos 30 devido à crise do setor agro-exportador, onde, a indústria configura-se apenas como uma alternativa, entre tantas experimentadas para lidar com a crise. O sistema Agroexportador base da economia nacional possui traços característicos de subordinação, estando dependente, pois voltado ao exterior, aqui a relação comercial e financeira externa não é uma relação de nossa economia, é a relação, o sistema da qual ela depende chama-se imperialismo. O fato de nossa economia ser voltada para o mercado externo acaba bloqueando a produção de mercadorias para realização interna, lê-se aí nosso atraso industrial, o requerimento de financiamento externo acaba por fazer que o rendimento seja destinado a pagar os custos da intermediação comercial e financeira externa, impossibilitando o avanço na divisão social do trabalho.
A concreção de nossa industrialização durante o período do “milagre brasileiro”, sob regime ditatorial, que pretende concretizar nossa “modernização”, por cima, de forma brusca e autoritária, peca por conceber mudar toda a dinâmica econômica através da intervenção política, o que nos mantêm subordinados ao capital externo que impede nossa autonomia e desenvolvimento.
A redução da economia de matriz fundante da sociabilidade humana a mero “fator”, tendo validade relativa a qualquer outro”, desliza a argumentação para o plano da “oposição de interesses”, ou seja, a esfera política, o sintoma da impossibilidade da auto-regulação humana dentro deste sistema, deixa a base de nossa sociedade inalterada, e falha por tentar mudar sem mudar de fato, desenvolver mantendo a subordinação.
Leandro Lopes dos Santos - Sociólogo